Kimpa Vita a profetiza do Congo

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Com a intensa dominação europeia sobre o continente Africano no século XVII, o Reino do Congo além de ter sua cultura, ideias e políticas dominadas e reprimidas pela doutrinação do cristianismo e as imposições europeias, passou por disputas entre seu próprio povo. Três famílias disputavam o reino, e congoleses guerrilhavam entre si por divergências ideológicas, alguns aceitavam a imposição portuguesa, outros não.
Os colonos, por sua vez, faziam tudo o que era possível para ocupar e derrotar a nação Bacongo.
Nesse contexto, muitos profetas surgiram para propagar suas visões políticas, sociais e religiosas, dentre eles estava Kimpa Vita.
A profetiza e o Antonianismo
Kimpa nasceu na antiga capital do reino, M’Banza Congo, em 1684, vinda de uma família nobre, e acreditava possuir o espírito Santo dentro de si. A moça teria sido a resposta a uma profecia que circulava pelo Congo e dizia sobre o nascimento um guia espiritual que unificaria o povo congolês, que traria sabedoria àqueles que a ouvissem, e maldição contra os que ignorassem.
Kimpa cresceu na religião cristã, e após curar-se de uma forte doença, afirmou ter falecido e voltado a vida, como o católico Santo Antônio. Desde então, Kimpa passou a pregar para multidões por todo o reino, seu movimento ficou conhecido como Antonianismo, em referência ao santo.
As ideias propagadas pela profetiza possuíam intensa conotação política, Kimpa inclusive havia proclamado “Rei do Congo” Pedro Constantino da Silva, o militar enviado pelo rei português, em troca de sua conversão ao Antonianismo. Suas pregações diziam, ainda, que Jesus Cristo havia nascido em São Salvador, capital do reino, e não em Belém, como conta a mitologia cristã. Dizia Kimpa que a Virgem Maria era negra, filha de uma escrava ou criada de um marquês de Nzimba Npanghi, e que São Francisco fazia parte de um clã do Marquês de Vunda.
Com o passar do tempo, Kimpa Vita estabeleceu um clero, uma verdadeira igreja antoniana, ao mesmo tempo que rejeitava sacramentos católicos como o batismo, a confissão, e o matrimônio. Abrindo legitimidade para a volta da poligamia. Adaptou e adotou orações católicas, mas extinguiu a adoração à cruz, pela mesma ter sido a razão da morte de Jesus Cristo.
Morte por heresia
Pessoas viajavam de vários lugares para ouvir os ensinamentos de Kimpa Vita. Dessa maneira, a profetiza despertou inimigos de sua ideologia, e o rei português D. Pedro IV, que no início hesitou em reprimir o movimento antoniano, cedeu às pressões inimigas e decretou a prisão de Kimpa e de São João*, que ela considerava seu “anjo da guarda”, a quem os frades acusavam de ser seu amante.
A prisão foi feita sob acusação de que a profetiza havia tido um filho em segredo, e que seu choro fora ouvido enquanto ela o amamentava, fazendo cair por terra sua alegação de que ela era reencarnação de Santo Antônio. Kimpa Vita foi condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo em 1708.
*Não há informações sobre quem fora São João retratado nesse contexto.
Coletivo
Na UNESP Bauru, o Coletivo Negro leva o nome de Kimpa, tendo a profetiza como símbolo da força da mulher negra que resiste ao racismo, machismo e dominação.
Suas reuniões acontecem todas as quintas-feiras, às 17:30, na salas 40's.